Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Marraquexe, Praça Djema El-Fnaa - por Humberto Lopes

 

O torvelinho à volta da zona antiga atravessa todas as horas do dia, mas o crepúsculo é o momento de explosão de uma indescritível vertigem no espantoso teatro da Praça Djema el-Fnaa, o coração palpitante de Marraquexe. A algazarra multiforme irá prolongar-se por horas galvanizantes, repetindo um ritual há muito familiar aos habitantes, um cerimonial que é afinal um espelho e um símbolo da grande metrópole cosmopolita e multicultural do sul de Marrocos.
Como em raras paragens, o viajante mergulha em pleno palco, abraçado pelos actores de uma peça em que o guião é escrito pela própria vida. Estranhas ciências, artes inclassificáveis, racionalidades refractárias ao pequeno entendimento do turista embasbacado, sonoridades entranhadas de insondáveis sentidos telúricos.
Não há como fugir ao mistério, que começa logo pelo nome do local, Djemaa el-Fna. A explicação de “lugar de reunião dos mortos”, justificada no facto de ali serem outrora expostos os executados, não parece convincente e está longe de reunir consenso entre os historiadores. Noutros termos, o delírio interpretativo pode tomar as mais díspares direcções ou manter-se, em contrapartida, numa sensata indefinição. “Djemaa” também pode ser traduzido por mesquita, e “fna” por nada.
Conta-se também, afinal, que para aquele lugar se projectou um dia uma mesquita durante o reinado da dinastia saadi. O nome da praça seria, assim, a nomeação de uma ausência, coisa que afinal se revela tão perene como uma presença material.
 Não é exagero dizer que todos os sentidos são indispensáveis para fruir o caleidoscópio de cores, sons, sabores e aromas da praça. A atmosfera desenha-se com uma infinidade de elementos plásticos. Os pequenos restaurantes ao ar livre exalam odores e fumaradas que vagueiam pela praça. Tambores e cornetas repetem lenga-lengas minimalistas ao mesmo tempo que as serpentes trazidas dos desertos dançam ao som das flautas berberes. Contadores de histórias, que podem continuar indefinidamente as suas narrativas (em árabe ou berbere) nos dias ou nas semanas seguintes, juntam à sua volta dezenas de ouvintes absolutamente alheados de tudo quanto à volta sucede. Videntes e astrólogos desenham no chão, com coloridos pigmentos, o porvir dos clientes. Médicos e curandeiros reputadíssimos descrevem meticulosamente as propriedades curativas de uma grande variedade de ervas e antídotos para mordeduras de escorpiões ou tarântulas. Nada do outro mundo, todavia.
Na realidade, a única coisa exótica na Praça Djemaa el-Fna são os turistas com as suas câmaras de vídeo e as suas manobras furtivas para obterem as imagens que levarão para casa e os impedem afinal, nesse momento, de estar lá.

Publicado em www.almadeviajante.com

 

publicado por Carlos Palmeiro às 07:23
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